O lugarejo onde nasci era lindo, só que na época, eu não sabia...
perceber e compreender a beleza do que me cercava , demorou muito tempo, mesmo porque o ideal de todo jovem que mora no interior nordestino é viver na Capital.
Lembro que, como meu pai era vereador, nesta época o edil não era pago para exercer o papel de defensor da comunidade, através de um amigo nosso, Dr. Ribeiro Godoy, Deputado Estadual, já falecido, consegui realizar o sonho de estudar na Capital.
Foi uma verdadeira odisséia, primeiro tive que vencer a resistência dos meus pais, afinal nem conhecia direito a cidade a qual pertencia o lugarejo, quanto mais
Recife, onde não havia ainda posto os pés até os 19 anos.
Bem, de inicio , não foi nada fácil para mim, tive que morar na casa de uns amigos e compadres dos meus pais, exigência da minha mãe. Acontece que sempre fui
uma garota independente e já tinha uma profissão, era Professora Primária .Graças a
isto é que pude ser transferida e lotada na Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Pernambuco.
A principio fiquei como Secretária da Diretora do Departamento de Educa
ção Primária – Dona Maria Elisa Viegas de Medeiros- que teve muita importância nos rumos que dei a minha vida. Foi dela que ouvi a primeira frase que motivou e regeu meus anos de Faculdade e posteriormente também: “Minha filha aprenda uma coisa, pobre tem que sair de baixo dos cacos de vidro e dizer quem é ninguém vai procurá-lo lá” (sic).
Durante muito tempo meditei sobre a profundidade da frase, confesso que
fiquei algum tempo sem entender , mas a medida que tudo acontecia ao meu redor e as solicitações se faziam presentes, fui assimilando e procurando sempre dar o melhor de mim em tudo que fazia sem questionar se era ou não aquela a tarefa que minha função exigia. Não que quisesse me destacar, ser melhor que os outros, mas exercitar a confiança e responsabilidade que em mim havia sido depositada era ponto de honra para mim.
Dona Maria Elisa queria que eu cursasse uma Faculdade na Área de Educação, mas optei pela Odontologia, e de certo modo segui seu conselho, pois me dediquei após concluir o Curso, ao Magistério Superior, e conclui que, antes de mim, ela havia percebido a minha verdadeira vocação.
Nunca desisti de ir à luta, e nunca fiquei intimidada diante dos obstáculos que fui encontrando pelo caminho. Lembro que meu primeiro Concurso Público para Auxiliar de Ensino da Universidade Federal Rural de PE, concorri com pessoas de melhor Currículo , vez que eu era recém formada , apenas havia exercido monitoria na Disciplina exigida e era citada em trabalhos de Pesquisa Cientifica sobre o Timbu ( Didelphis paraguaiensys ) dos professores Newton Macha ( USP) e Robério Neves(UPE).
Pois bem, venci o concurso em primeiro lugar e o Magistério consolidou-se como minha primeira paixão. Ensinei nas Faculdades de Odontologia de PE e de Caruaru. Não hesitei no começo de tudo de abrir mão de um salário melhor na Secretaria de Educação, em prol daquilo que acreditava ser melhor para minha realização pessoal.
Todo este revival manifestou-se após uma saudade intensa da minha vidinha interiorana e a percepção de que tudo mudou, até o meu pacato lugarejo, a paisagem até que é a mesma, parece que lá o tempo parou, entretanto as pessoas são outras e a estagnação levou o lugar a se tornar apenas um “dormitório”: as pessoas trabalham nas cidades próximas e vai lá apenas dormir.
Sinto-me aprisionada nas lembranças de um tempo vivido, mas sabedora que o meu presente foi construído e desejado por mim, logo, resta-me apreciar a singeleza do reduto onde tudo começou e compreender a sabedoria da temporalidade do que restou.
Escrito por Maria Claudete